Certa vez eu li uma crônica de Nelson Rodrigues intitulada “Lucy”. Foi uma das experiências mais interessantes da minha vida...
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A crônica inicia-se com a notícia de que Kalypsus Lucy morrera. De fato, não fazia idéia de quem fora, mas é certo que ao chegar às últimas palavras da crônica já havia, de certa forma, me apaixonado pela defunta.
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“Kalypsus era a mulher mais estranha, mais esquisita, mais complexa do mundo. E a mais humana, também...”. É essa a primeira descrição sobre ela, ainda nos primeiros parágrafos do texto. “As emoções que feriam sua sensibilidade eram febris, impulsivas, alucinadas. Apareciam velozes, vertiginosas, irresistíveis. Por isso era impossível coordena-las”. Ao ler isso, percebi que Lucy não era ninguém mais, ninguém menos que uma moça que eu conheci tempos atrás. Seu nome eu não digo, mas garanto que uma é a reencarnação da outra!
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Em tempos antigos, quando eu escrevia no “Bicho de 3 Cabeças” eu lembro claramente de ter escrito um texto sobre a minha Kalypsus. O título era alguma coisa como “O dia” e falava sobre como em quinze minutos, uma menina mal adulta pode fazer mudar totalmente o significado do dia. Não só o do dia, mas de todo dia depois daquele.
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Amor. Não é essa a palavra. Antes fosse, pois se o amor já é algo complexo por si, pelo menos há gente tentando entende-lo há séculos. É um sentimento mais sutil, cercado por uma película de sarcasmo, que nunca deixa a marca da certeza no ponto final de cada frase. “Até hoje tenho mantido incólume esta convicção: ninguém, a não ser eu, poderia compreender sentimentos tão desordenados e tumultuários”, disse Nelson em sua crônica, e de fato não poderia estar mais certo, se é que assim como ele, eu hei compreender a minha Kalypsus. Verdade que só de ser mulher já se torna um mistério. Nesse caso, ainda devia-se abrir um parênteses só para constar sua tão desafiadora inexatidão.
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E se no final de tudo, a Kalypsus de Nelson, tão cheia de vida e tão inimaginável morreu, eu posso dizer com toda certeza que ela foi uma privilegiada... Tanto quanto a minha Kalypsus, que numa hora dessas está enxergando a realidade com uma intensidade muito maior, seja no horizonte azul do oceano infinito, seja na fumaça dos carros que cruzam as avenidas cinzentas.