segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Sobre uma crônica

Certa vez eu li uma crônica de Nelson Rodrigues intitulada “Lucy”. Foi uma das experiências mais interessantes da minha vida...

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A crônica inicia-se com a notícia de que Kalypsus Lucy morrera. De fato, não fazia idéia de quem fora, mas é certo que ao chegar às últimas palavras da crônica já havia, de certa forma, me apaixonado pela defunta.

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“Kalypsus era a mulher mais estranha, mais esquisita, mais complexa do mundo. E a mais humana, também...”. É essa a primeira descrição sobre ela, ainda nos primeiros parágrafos do texto. “As emoções que feriam sua sensibilidade eram febris, impulsivas, alucinadas. Apareciam velozes, vertiginosas, irresistíveis. Por isso era impossível coordena-las”. Ao ler isso, percebi que Lucy não era ninguém mais, ninguém menos que uma moça que eu conheci tempos atrás. Seu nome eu não digo, mas garanto que uma é a reencarnação da outra!

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Em tempos antigos, quando eu escrevia no “Bicho de 3 Cabeças” eu lembro claramente de ter escrito um texto sobre a minha Kalypsus. O título era alguma coisa como “O dia” e falava sobre como em quinze minutos, uma menina mal adulta pode fazer mudar totalmente o significado do dia. Não só o do dia, mas de todo dia depois daquele.

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Amor. Não é essa a palavra. Antes fosse, pois se o amor já é algo complexo por si, pelo menos há gente tentando entende-lo há séculos. É um sentimento mais sutil, cercado por uma película de sarcasmo, que nunca deixa a marca da certeza no ponto final de cada frase. “Até hoje tenho mantido incólume esta convicção: ninguém, a não ser eu, poderia compreender sentimentos tão desordenados e tumultuários”, disse Nelson em sua crônica, e de fato não poderia estar mais certo, se é que assim como ele, eu hei compreender a minha Kalypsus. Verdade que só de ser mulher já se torna um mistério. Nesse caso, ainda devia-se abrir um parênteses só para constar sua tão desafiadora inexatidão.

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E se no final de tudo, a Kalypsus de Nelson, tão cheia de vida e tão inimaginável morreu, eu posso dizer com toda certeza que ela foi uma privilegiada... Tanto quanto a minha Kalypsus, que numa hora dessas está enxergando a realidade com uma intensidade muito maior, seja no horizonte azul do oceano infinito, seja na fumaça dos carros que cruzam as avenidas cinzentas.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Emagrece.

Emagrece.

Emagrece até ficar magra de ruim.

Esvai-te em gorduras, interesses e sentimentos até só sobrar o óbvio.

- E ainda há quem pense que isso te faz melhor -

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Metria

Eu queria ter uma virtude que não fosse encontrar virtudes. Eu queria conseguir parar de dissecar o óbvio e achar coisas onde não deveria ter. Eu queria olhar aqueles dois olhos azuis e não ver nada além deles...

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Seria bom se todos nós fôssemos redondos. Sem nenhum vértice escondido, sem nenhuma virtude pra revelar. A solidão com certeza seria só um pontinho tangente num setor circular qualquer e que logo desapareceria.

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O problema de ser redondo é só um... Nenhum círculo se encaixa em outro. A verdade é que amar é coisa de vértice... Só os polígonos não-convexos podem preencher e ser preenchidos por outro. Apaixonar-se por um elemento perfeito como uma circunferência é muito fácil... Mas amor mesmo é se encantar pela quebra da regularidade, pelas peculiaridades, ou nesse caso, pelas linhas que ficam de fora do seu interior.

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Nos vértices das nossas vidas, escondidas e cheias de horizontes a serem desbravados, estão as verdadeiras virtudes... São aqueles dois olhos azuis, é o que está por trás do óbvio, é a sutil e corrosiva virgindade da paixão, e por fim, é a razão de todas as minhas angustias.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Dor

Com teus gestos suaves abarrotados de compreensão,

com teu olhar que tange o infinito,

sendo limitada apenas por ser humana

e mesmo assim - a mais linda humana

tu fazes desabrochar uma realidade, em mim, bem maior

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Nas formas melodiosas das tuas curvas

onde se delineia todo o meu desejo,

eu me perco em mil e um devaneios

- "Boca de primavera sedenta de amor"

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E cada vez que tu me aparece - renovada em mistérios

me corrói uma virgindade perene

porque sempre eu hei de curioso estar

por não saber nada sobre ti.

Uma incessante busca por saber o que te fez assim

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E por fim, se acabas com a anemia dos meus dias

eu te imploro, ó minha amada...

Dorme aqui comigo uma só noite,

pois pra sempre eu hei de lembrar .

Basta uma única sóbria lembrança

do maior amor que já senti, aqui comigo.

À sensação de que você poderia morrer sem deixar saudades.

O tempo passa devagar e errado, mas passa. Embora seja torturante que cada nova manhã traga com ela o infinito das horas, a verdade é que toda noite traz consigo algo muito pior.

Se a manhã desperta a indisposição de abrir as janelas e dar as caras ao longo dia que me espera, é durante a noite que bate uma inquietude atípica, cheia de sentimentos reprimidos.

A angustia vem às 23:00min. É nessa hora que se percebe o quão inútil foi o dia que ainda jaz lentamente. A sensação é inescrupulosa... De olhar pra você mesmo e não ter nada a dizer. Saber que as horas que passaram não foram nada além de um dia comum é uma coisa perturbadora.

Meia noite. O corpo pede clemência, pois trabalhou duro durante todo o dia recém passado. À parte disso, o corpo deve deitar-se só e sozinho, afinal de contas... Foi de estar perdido em tantas horas vagarosas que conheceu, talvez a pior de todas as sensações, a solidão.

O único tempo que existe é o futuro. Nada além disso. Nas ruas, nas escolas, nos trabalhos, tudo é pensado e construído para que não se viva o Hoje. Assim, portanto, faz-se desconhecido outro ser humano dotado de espontaneidade, com os sentimentos à flor da pele.

Ainda é na madrugada que chega a saudade. Saudade da infância e das tardes na casa dos avós? É claro. Mas saudade também de todas as lembranças não vividas. Saudade de amar incondicionalmente. Saudade de se entregar a uma realidade onde os sonhos sejam reais. Saudade de ir dormir arrependido. Saudade.

Por fim, tudo o que fica é a ilusão de viver a vida